Posição oficial da EUTIMIA em relação ao suicídio no contexto dos serviços de segurança

A posição oficial da EUTIMIA em relação ao suicídio no contexto dos serviços de segurança, nomeadamente PSP e GNR, é a seguinte:

  1. A taxa de suicídio nas forças de segurança é em média maior do que na população geral, até ao triplo ou mais;
  2. O acesso às armas de fogo é um dos aspetos mais importantes do fenómeno mas não é a única explicação para essa diferença;
  3. As circunstâncias associáveis ao trabalho específico dos agentes da PSP e da GNR, nomeadamente a exposição à violência e aos seus resultados, é um aspeto a levar em linha de conta;
  4. O exercício contingente da autoridade — o agente é fonte de autoridade mas o exercício da mesma pode ser-lhe prejudicial — é um outro aspeto importante;
  5. As dificuldades circunstanciais derivadas do deslocamento geográfico dos profissionais também jogarão certamente um papel mas em outras profissões em que tal ocorre, não se verifica a mesma taxa elevada de suicídios;
  6. O suicídio de um profissional da PSP e da GNR concita, regra geral, um envolvimento maciço dos meios de comunicação social, sem intenção dolosa, determinando múltiplas notícias, as quais frequentemente não cumprem as regras deontológicas e de boas práticas que os próprios meios de comunicação propugnam, raramente sendo complacentes com as recomendações internacionais na matéria;
  7. Os representantes dos interesses da classe profissional, no desempenho das suas funções, e sem intenção dolosa, fazem frequentemente uma interpretação e uso indevido da tragédia individual que afeta a família e os colegas da vítima, e retiram consequências abusivas quanto ao impacto das condições do exercício profissional na génese do episódio suicidário, dando a conhecer as mesmas na comunicação social;
  8. É imperativo produzir um consenso para reduzir ao mínimo o efeito de cluster do suicídio nas forças de segurança — um cluster diz respeito a eventos agregados no tempo e no espaço e por características comuns;
  9. Parece haver uma convicção nas duas corporações de que a magnitude do problema se deve resolver internamente, ideia esta cimentada pelos apelos frequentes oriundos da PSP e GNR para o reforço de recursos humanos na área da saúde mental, pelos grupos de trabalho internos para abordar o problema, e pela ausência de audição de outras partes interessadas na sociedade, externas às cooperações, e com experiência na matéria;
  10. Embora a ideia e princípios sejam generosos e bem intencionados, considerar que o panorama atual será modificado por um aumento de acesso a cuidados de saúde mental internos e no SNS é uma conceção que subrepresenta as especificidades dos profissionais e a organização dos cuidados de saúde mental de que carecem os agentes e guardas;
  11. Os serviços de psicologia internos nas duas corporações são absolutamente fundamentais para o sucesso das várias ações de base para a organização de um programa de prevenção das doenças mentais comuns e do suicídio que possa dar resultados em 3 a 5 anos, para além das funções que lhe estão originalmente cometidas;
  12. Os profissionais da PSP e da GNR devem poder ser avaliados, diagnosticados e tratados pelos profissionais adequados, e enquanto utilizadores de cuidados de saúde, sentindo que existem condições — subjetivas, mas não menos importantes por isso — de tranquilidade e confidencialidade;
  13. Existem serviços adstritos e tendo por beneficiários os profissionais da PSP e da GNR que promovem essas condições subjetivas de liberdade de escolha, confiança e confidencialidade;
  14. É necessária a produção e implementação de um programa de promoção da saúde mental, promotor da resiliência, da deteção do risco e com planos de segurança pré-definidos, obedecendo às melhores práticas e provas científicas internacionais, consensualizado entre os vários orgãos e partes interessadas — os cidadãos, os familiares, colegas e amigos das vítimas, o Governo, os representantes dos profissionais da PSP e GNR, as hierarquias e os serviços internos da PSP e da GNR, os editores dos meios de comunicação social, e os especialistas nesta matéria — criando sinergias e catálise de recursos, vontades e resultados, em última análise passível de transformar cada agente e guarda num elemento protetor de si próprio, dos seus parceiros e dos seus concidadãos, com retorno e sem custos acrescidos para os contribuintes;
  15. Estudos são sempre bem-vindos, nomeadamente se com objetivos bem definidos e sujeitos a concurso internacional para que a sua validade e conclusões possam ser irrepreensíveis e isentas de vieses; todavia, há imensos estudos na literatura internacional que podem guiar as questões que se deseja esclarecer;
  16. Os agentes e guardas da PSP e da GNR podem desempenhar um papel crucial, insubstituível, na promoção e prevenção da saúde mental dos seus concidadãos;
  17. É comum em países do primeiro mundo auscultar as forças vivas da comunidade, como as ONG’s que têm missões, advogam causas e têm um saber-fazer específico temático: a EUTIMIA deseja ser ouvida por quem de direito sobre qualquer tema que verse a prevenção da depressão e do suicídio porque detém as condições, competências e a experiência para dar um contributo técnico não negligenciável, e como tal, tem solicitado reiteradamente para ser ouvida nesta matéria específica;
  18. Os sobreviventes do suicídio dos agentes e guardas são os colegas, familiares e amigos próximos que sofreram essa perda terrível e que carecem, também eles de referenciação, cuidados e organização destes;
  19. O suicídio não pode ser matéria de confronto político mas sim matéria de consensos políticos alargados entre todas as forças do espectro partidário;
  20. A prevenção do suicídio diz respeito a todos.